Por Assessoria
A Assembleia Legislativa de Goiás sediou nesta quarta-feira, 3, audiência pública promovida pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados que investiga desaparecimento de crianças e adolescentes no Brasil (CPI do Desaparecimento). Um dos objetivos da audiência foi a discussão das providências adotadas pelas autoridades para a prevenção do desaparecimento de crianças.
A mesa do evento foi composta pela deputada federal e presidente da CPI, Bel Mesquita (PMDB-PA); o deputado federal Geraldo Pudim (PR-RJ); o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, deputado Mauro Rubem (PT); a presidente da Comissão da Criança e do Adolescente da Assembleia, deputada Mara Naves (PMDB); o vereador de Goiânia, Clécio Alves (PMDB); e o secretário estadual de Segurança Pública e deputado estadual licenciado, Ernesto Roller (PP).
De acordo com Bel Mesquita, cerca de 80% dos desaparecimentos de crianças e adolescentes no Brasil são casos de fuga de menores. Maus tratos, abusos sexuais, desavenças familiares e relacionamentos amorosos indesejados seriam algumas das razões para a fuga. Os outros 20% dos desaparecimentos não apresentam uma causa lógica para o sumiço. Nessas situações, o caso geralmente é solucionado pela Polícia com a entrega do corpo à família.
“A CPI busca proposta de atuação preventiva que possa reduzir os dois tipos de desaparecimentos”, afirmou a deputada. A parlamentar acrescentou que ações voltadas para as famílias são vitais para a obtenção dessa redução. “Escolas e creches, por exemplo, são fundamentais para que as mães não deixem as crianças sozinhas em casa enquanto trabalham. Necessitamos de um real sistema de apoio à família, que é um ponto-chave nos casos de desaparecimento”, enfatizou.
Já o deputado federal Geraldo Pudim (PR-RJ) disse que recebeu uma denúncia de que policiais militares de Goiânia têm “práticas recorrentes de extermíno”. Segundo o deputado, dados estatísticos o levam a acreditar que essa denúncia seja verdadeira.
O secretário de Segurança Pública, Ernesto Roller (PP), afirmou que não existe ainda laudo que confirme o envolvimento de PMs nos casos de desaparecimento. No entanto, afirmou que cabe aos responsáveis pelas investigações averiguar todas as suspeitas e chegar ao responsável aplicando as punições que forem cabíveis.
Ernesto Roller acrescentou ainda que, caso a investigação aponte alguma instituição de Segurança Pública como responsável por quaisquer atos criminais, não haverá amenizações quanto às punições dos responsáveis e que, inclusive, já foram adotadas medidas para que se iniba este tipo de conduta.
O secretário também ressaltou que Goiás está fazendo tudo que é “possível e impossível” para tentar esclarecer o caso de pessoas desaparecidas em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal. Segundo Roller, a cooperação da Polícia Federal está sendo importante na investigação dos casos. “Estamos fazendo uma grande ação policial focada na inteligência, na Polícia Científica”, explicou.
Para a titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA-GO), Adriana Sauthier Accorsi, a CPI possui um aspecto maior que simplesmente elucidar fatos já ocorridos, e destaca que sua maior característica está no fato de iniciar um processo de conscientização e prevenção a novos desaparecimentos.
Adriana Accorsi pontuou que a negligência das famílias facilita o trabalho de criminosos. “Há crianças que são abusadas dentro de casa, há crianças de oito anos que andam quilômetros sozinhas nas ruas, todos os dias. Essa desestruturação familiar piora o problema”, afirmou. Outro ponto destacado pela delegada que contribui para a elevação dos casos de desaparecimento é a disseminação do crack entre menores de idade.
Para o coordenador do Centro de Apoio Operacional da Infância, Juventude e Educação de Goiás, Everaldo Sebastião de Sousa, a falta de políticas preventivas é um dos principais fatores que levam ao desaparecimento de crianças e adolescentes em Goiás. Segundo o coordenador, a falta de estrutura dos municípios pode ser destacada como um dos principais agentes colaboradores para as estatísticas atuais.
“Hoje, as iniciativas que tratam de crianças e adolescentes são municipalizadas e, infelizmente, dado a falta de estrutura dos municípios goianos e particularmente do Entorno do Distrito Federal, essas iniciativas vêm deixando muito a desejar, ficando essa parcela da população praticamente sem assistência”, disse Everaldo Sousa.
A deputada Mara Naves (PMDB) também defendeu uma maior atenção às ações preventivas para o combate dos desaparecimentos. “Precisamos melhorar as políticas públicas, as famílias precisam ser fortalecidas, a violência doméstica tem de acabar”, pontuou deputada.
Mauro Rubem (PT) destacou a preocupação com o tráfico de órgãos, em Goiás. Segundo o parlamentar, os veículos de comunicação de rádio e televisão, que são concessões públicas, deveriam divulgar mais informações sobre os casos de desaparecimento. Mauro Rubem sugeriu a formulação de um projeto de lei neste sentido, no Congresso Nacional.
Denúncias
Mauro Rubem ainda ressaltou casos de violência policial contra menores de idade em Goiás. O deputado federal Geraldo Pudim solicitou ao deputado que encaminhe as denúncias para a CPI. O parlamentar petista confirmou que enviará os documentos.
Geraldo Pudim (PR-RJ) também anunciou ainda que Mauro Rubem foi incluído como um dos depoentes da CPI. O deputado estadual pediu para ser incluído na lista de depoentes porque, segundo ele, há “sérias denúncias” que precisam ser feitas em Goiás.
Famílias dos desaparecidos
As mães dos seis jovens desaparecidos misteriosamente no município de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, acompanham a audiência pública. Segundo Valdirene Fernandes da Cunha, mãe de Flávio Augusto, de 14 anos, desaparecido desde 18 de janeiro deste ano, ainda não há nenhuma resposta para os desaparecimentos. “Acompanhamos de perto os trabalhos das autoridades envolvidas. Nossa esperança é de que, a qualquer momento, este caso seja solucionado e nossos filhos voltem para casa.”
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